Logo agora que você estava quase entendendo o que eu estou falando
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| Fudêncio (2005) |
Meu amigo morava na rua por trás da casa de vovó e vovô.
Mas nossa amizade foi quase toda criada somente no tempo de ir e no tempo de voltar da escola juntos, durante alguns anos.
Dentro do transporte escolar, às 6h30 da manhã, só se dizia o necessário. O motorista deixava o rádio ligado e quase sempre dava tempo de escutar o horóscopo inteiro. Virou uma coisa importante saber qual cor cada um deveria usar pra ter um dia auspicioso. Fossem bebês ou adolescentes.
Na volta, a história era outra. Bagunça!!!
Costumo ver nossas interações por um filtro de maturidade que não sei se é invenção minha. É provável que seja. Porque, agora, mais velha, considero aquelas crianças como fonte de tudo o que eu preciso saber. São mais memórias (bem enfeitadas por mim hehe) pra consultar do que experiências.
Mas a gente era legal, eu acho. Ele mais do que eu. Um cara de boa, engraçado, sensível e tal, meio esquisito. Tratava os mais novos com dignidade. Ainda assim, fazia parte do grupo dos "grandes!", diariamente anunciados pelos menorzinhos sentados nos bancos da frente do transporte. Uma espécie de irmão mais velho acessível e inacessível ao mesmo tempo.
Antes de o muro que separava os ensinos fundamental e médio fazer com que a gente precisasse falar cada vez mais alto pra se escutar, até não se escutar mais, música era o assunto favorito.
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O alto-falante do Sony Ericsson branco dele ensinou direitinho grandes letras a quem estava por perto. Bois don't cry e Lá vem o alemão são os melhores exemplos. Minha irmã e eu, pelo menos, temos tudo isso como nossa MTV.
Música: Cabeça de bagre II
Banda: Mamonas Assassinas (1995)
Ganhei um violão; ele já tocava violão e eu fazia muitas perguntas. Não sei bem o que perguntei naquele dia; lembro que tinha a ver com a minha dificuldade em trocar os acordes.
Cada um deles significava um desafio isolado. Não dava pra acreditar que em algum momento aquilo seria considerado uma música; e o silêncio irritante das tentativas era responsável por essa desconfiança. Também a combinação de dedos de criança, cordas de aço e a pressa de aprender. Eu não controlava o impulso de afastar completamente a mão esquerda das cordas logo depois de conseguir ouvir as notas do acorde. Só pra ter que fazer tudo do começo com o próximo.
Meu amigo me disse: “olha o que tu já tem, pensa no que tu vai precisar fazer depois e só muda o que for necessário”. Sem mistério.

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