tudo o que eu queria dizer na aula passada e na outra e na próxima

eu poderia ser um padre ou um dentista
um arquiteto, um deputado ou jornalista
eu poderia ser ator e me dar bem
ser um poeta que escreve versos como ninguém

eu poderia ser um general da banda
uma modelo, um herói da propaganda
eu poderia ser escravo do trabalho
ser um banqueiro, um estilista do baralho

e não há nenhuma outra hipótese
que eu não considere, mas
o que eu queria mesmo ser
é a cássia eller

acho que finalmente entendi o que ela queria dizer

queria falar sobre a origem dos mitos japoneses. sobre estratégias e conveniência.
queria falar de como me sinto mais confiante lendo um autor que se mostra e é honesto.
queria falar que quase nunca pego de primeira. e que demoro.
da experiência horrível que minha irmã teve com comentários ofensivos.
sobre não aguentar mais escutar homens falando besteira e ficar calada.
de pedir pra terem cuidado com o cara que fez os filmes.
queria falar de como li a mão esquerda da escuridão sem dar muita atenção às minhas percepções insistentes. geralmente desconfio do que eu acho. na minha cabeça tá errado, incompleto. ou é inconveniente.
 
às vezes eu me agarro em alguém e faço daquela pessoa um modelo. meu. pra quase tudo. alguém em quem me inspiro de um jeito imprudente mesmo. alguém que nesse contexto que crio me agitaria. com imperfeições que julgo interessantes. com quem eu penso me identificar. que se daria bem com meu eu idealizado. que tenha posicionamentos e atitudes que eu gostaria de ter, ou que penso ter o potencial de ter. 

só preciso de um dia pra projetar a minha vida nessa pessoa (não raro em personagens fictícios...). transfiro pra ela minhas expectativas em mim e tudo o que nem sei se queria ser. e fico satisfeita por um tempo.

patti smith foi (e de vez em quando volta a ser) essa pessoa. de cara.


pra mim tudo o que ela faz tem efeito de portal. 

um dia eu tava procurando fotos dela lá pelo tumblr e encontrei um post. era sobre uma fala escancaradamente preconceituosa de patti nos anos 70 ou 80, a respeito de uma música dos stones, se me lembro direito. soava como uma pessoa alheia à realidade. desinformada e confortável, até certo ponto. 

lembro de ter ficado muito chateada com tudo isso. e de ter questionado várias posturas minhas em relação a outros. próximos ou distantes a mim. 

essa mania de colocar pessoas num lugar isolado, num espaço sobre-humano, afastadas de tudo o que a realidade pode supor. e não permitir que ela se equivoque em momento algum. uma tendência complicada de transformar os erros, mesmo os mais "banais", numa condenação de uma vida inteira sem a possibilidade de mudar. de se retratar. de despencar na real. 

(vários não cabem aqui, os de caso pensado, por exemplo)

quando esse tipo de postura é considerado necessário?

acho que fui um pouco injusta com ela. naquele momento.
percebi que tenho sido injusta comigo. quase todos os dias.
tantos processos violentos. 
de anulação, principalmente.

pensava que cássia tava falando de respostas. pelo visto errei de novo.
às vezes também queria ser ela. 
às vezes queria ser eu. 


faixa: eu queria ser cássia eller
álbum: veneno vivo
artista: cássia eller
ano: 1998


*filipe catto cantando essa música é massa! 

Comentários

  1. depois de ler essa tua postagem, posso afirmar, sem receio de estar errado, que me identifico contigo em diversos aspectos: primeiro, Cássia! adoro a Cássia e sempre gostei muito especificamente dessa música, dessa letra (o Catto cantando essa música é realmente "massa"! eu o conheci alguns anos atrás, em SP, e às vezes conversávamos pelo msn, sim, ainda na época do msn, eu morava em SP e ele ainda estava no Sul, mas já planejando a mudança para SP). sobre a Patti Smith, não sei tanto sobre a vida e obra dela, mas algum tempo atrás li que ela comprou a casa que pertenceu um dia ao Rimbaud e achei isso bastante curioso e me fez ter outro tipo de percepção sobre ela. agora, com tuas palavras, mais outras percepções. gostei do que li, gostei do que ouvi! siga! :)

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